09/04/2020
Por Edilson Silva em Mundo, Saúde

Covid-19: Nova York vive drama com necrotérios lotados e hospitais de campanha

Philip Tassi adverte que o cemitério onde trabalha está cheio de solicitações de enterros e que não há tempo para descanso: o governo do Estado de Nova York acaba de anunciar que entre segunda e terça-feira houve 731 mortes por coronavírus registradas.

“O número de pedidos de enterro e cremação que temos provavelmente subiu 300%”, diz Tassi, do cemitério Ferncliff em Westchester, poucos quilômetros ao norte de Manhattan.

Atualmente, até 20 corpos passam por este crematório em 16 horas de trabalho, sete dias por semana. Mas, mesmo assim, operando com capacidade máxima, o cronograma está completo até o final da próxima semana.

A história se repete em outros lugares de Nova York, o epicentro da pandemia de coronavírus nos Estados Unidos, o país com os casos mais confirmados de covid-19 no mundo.

“A maioria dos cemitérios não tem unidades de refrigeração para lidar com uma pandemia. Portanto, o maior problema agora é que não temos armazenamento refrigerado para manter os corpos aqui por longos períodos”, diz Tassi, que preside a Associação dos Cemitérios do Estado de Nova York e trabalha no setor há 23 anos.

Nunca vi algo assim

As casas funerárias também estão sobrecarregadas, e as autoridades enviaram dezenas de necrotérios móveis ou caminhões refrigerados para hospitais.

O objetivo é evitar que cadáveres se acumulem sem um local para recebê-los, como aconteceu em outros países atingidos pelo enfrentamento ao vírus.

“Eu nunca vi algo assim em toda a minha vida, tantas pessoas morrendo em um período tão curto”, disse Tassi à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC. “Nem no 11 de Setembro tivemos o número de corpos que temos agora com a pandemia”, diz ele, referindo-se aos ataques de 2001 na cidade.

De fato, nos ataques que os Estados Unidos consideraram o maior ato terrorista em sua história, quase 3 mil pessoas morreram em Nova York.

Esse número de vítimas foi oficialmente ultrapassado nesta semana pelo coronavírus. Na cidade de Nova York, já morreram mais de 3.200 pessoas, enquanto em todo o Estado esse índice chegou a 5.489.

O vírus e a cidade

A pandemia transformou Nova York: a cidade nunca esteve tão quieta e silenciosa por tanto tempo, a ponto de se poder atravessar avenidas sem esperar o semáforo ficar verde ou ouvir o barulho de uma moeda caindo na calçada deserta.

O silêncio só é quebrado quando uma ambulância passa com a sirene ligada.

Isso também ocorre às 19h, todos os dias, quando os nova-iorquinos aplaudem, das janelas, os profissionais de saúde que combatem a pandemia. Nesse momento, a cidade parece recuperar seu espírito barulhento por alguns minutos.

As autoridades locais estenderam o fechamento de escolas e empresas que não se enquadrem na categoria de serviços essenciais, bem como a proibição de reuniões até 29 de abril — as multas aos infratores podem chegar a US$ 1.000.

Embora a polícia não controle ostensivamente o movimento de pessoas, os 8,6 milhões de nova-iorquinos atenderam amplamente ao pedido de que permaneçam em suas casas pelo maior tempo possível.

Um hospital de campanha instalado no Central Park por uma organização religiosa humanitária recebe dezenas de pacientes de covid-19 diariamente, e ver aquelas tendas brancas no gramado desta cidade rica pode causar uma sensação de medo e estranhamento.

A catedral de São João, o Divino, em Manhattan, também está sendo convertida em um hospital. Ela é considerada a maior igreja gótica do mundo.

E os militares transformaram o Javits Convention Center, na mesma ilha, em outro hospital temporário com 2.500 leitos disponíveis.

O objetivo é aumentar a capacidade de assistência médica, que está no limite em um Estado com mais de 138.800 casos confirmados de coronavírus e mais de 17.400 pessoas hospitalizadas por causa da doença.

Nessa semana, o presidente Donald Trump autorizou que um navio-hospital militar comece a receber pacientes de covid-19 em Manhattan.

Mas, em outro sinal de que a doença está se espalhando incontrolavelmente, a Marinha dos Estados Unidos informou na terça-feira que um membro da tripulação do navio-hospital, o USNS Comfort, foi infectado pelo coronavírus — outros servidores foram isolados preventivamente.

Apesar do recorde de 731 mortes no Estado de Nova York entre segunda e terça-feira, o governador Andrew Cuomo disse que as hospitalizações e a passagem de pacientes para tratamento intensivo diminuíram.

Terra



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